terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Diplomacia da dupla negação de Descartes

Devo confessar que demorei algum tempo a descobrir a génese argumentativa desta premissa, mas a beleza da complexidade de raciocínio da formulação desta tese é apaixonante. A começar pelo início, pegar em Descartes por analogia invertida é de um brilhantismo inegável, mas o pormenor de maior génio é a mudança de pessoa de conjugação, “penso, logo existo” para “penso, logo existe”… genial… mais comum (mas não de menor virtuosismo) é clímax final da formulação, atingido pela dupla negação – “penso, logo existe” transforma-se em “não penso, logo não existe”… a capacidade de abrangência desta premissa é indubitável, o primeiro verbo pode, na realidade, ser substituído, mantendo a sua veracidade… “não falo, logo não existe”, “não vejo, logo não existe”, “não me lixa, logo não existe”… e a capacidade de substituição é interminável…
No entanto, a projecção desta premissa multifacetada para o campo da interacção social, gravita no limite invisível entre a genialidade e a idiotice. Se é um argumento muito útil na justificação pessoal da inércia, torna-se um tanto ou quanto perigoso na aplicação social… o verbo ignorar é muitas vezes de conjugação útil e confortável, mas uma ferramenta duvidosa de diplomacia, que raia a hipocrisia… o seu uso exagerado pode criar um certo mal-estar… vamos todos fazer-de-conta, não ouvi, não vi, não senti, não ligo, não reajo, não resolvo, não me mexo, não respiro… e ficam tantas coisas por resolver suspensas na esfera da hipocrisia, é como eles dizem, what goes around… além de que, quando esta premissa está tão intrínseca na postura social de alguém, gera-se muitas vezes uma espécie de síndrome simultâneo de Otelo-Iago, ou seja, dentro de um Otelo convicto, o seu pequeno Iago escondido…
Ser sincero e frontal, pode ser muitas vezes mal interpretado e mal aceite, acusado de isto ou aquilo, mas o grande perigo desta postura aparentemente mais pacifica, esta espécie de diplomacia da dupla negação de Descartes, é terminar como aldrabão, não em relação a ninguém, além de si próprio, a mentira do não… nada. Perdoa-me Aleixo por esta analogia, é mais forte do que eu, “há quem diga que pareço aldrabão, mas há muitos que eu conheço, que não parecendo o que são, são aquilo que eu pareço”