terça-feira, 14 de junho de 2005

A nossa centelha civilizacional

Ao chegar ao fim de uma Era, procuramos o nosso lugar numa sociedade prolífera em mudanças, mas ainda receosa e desesperadamente abraçada a preconceitos, como se observasse o mundo numa poltrona do AMC, fértil em tela mas árido na plateia. O mundo avança, por graça de alguns destemidos, outros temerários e uns quantos loucos sentados em vontades aladas no fluxo das suas visões oníricas, assim foi ainda o séc XX, como o XIX e os precedentes, assim foi copérnico num mundo de Ptolomeu. Será agora o tempo de perder o medo, abrir a mente? O fluxo do tempo colocou-nos aqui com o ensinamento que é a semente fértil do nosso futuro. As amarras da nossa moral e do nosso discernimento devem estar ancoradas na nossa consciencia, solta de dogmas e de vigilancia, celestial ou terrena. Os nossos argumentos devem estar apoiados no nosso conhecimento individual e colectivo. Caio num lugar comum ao afirmar que temos direito á nossas escolhas e o dever de respeitar as demais, temos direito ao nosso conhecimento e á nossa cultura e ainda assim o dever de respeitar as demais. Mas a névoa de hipócrisia dissipa-se no vento dos actos de medo e de interesses, e os verbos desse lugar comum esvanecem-se pondo a nu as fragilidades e imaturidades da nossa sociedade regredindo o nosso processo evolucional cinco séculos, e assistimos novamente aos actos de fé, ás piras franciscanas purificadoras do Rossio Manuelino.
Com um pé nesta nova fase evolucional, esperamos os novos icones, os novos copérnicos..... mas todos teremos de o ser. O apelo á unidade social é totalmente descabida se não houver antes a consciencia individual dos actos, dos verbos, dos adjectivos, do ser...
Auguro um terceiro milénio pleno de conhecimento e autoconsciencia em todo o individuo, em que todos tem o direito e o dever á sua centelha de civilização, em que uma forma de estado e a sua sociedade é realmente capaz e tem a vontade sincera de formar e abraçar todos os cidadãos.
A minha esperança receia cair numa utopia, mas são as nossas asas que nos fazem evoluir, são as asas que nos elevam do medo, nunca as deveriamos recolher.